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Dois homens… dois destinos…

Andamos em uma linha tênue em relação à Graça, por anos as pessoas foram colocadas em uma redoma com o intuito que a liderança preservaria sua congregação de sofrer com o pecado e suas conseqüências.

Digo isso porque aqui no Brasil, como já mencionei em outras ocasiões, um fator predominante fez com que a história da nação e sua população fossem marcadas por repressão e violência. Segundo alguns cristãos o Comunismo estava às portas e um levante patriótico levou inúmeras pessoas a buscar a Deus, o que se viu, como esses grupos comentam foi a “Tomada do Poder” pelos militares em meados de 1964. Mais do que fatos históricos é preciso entender este momento delicado da nossa história e traçar um paralelo com as denominações da época.

Na mesma medida que os militares reprimiam as pessoas, expulsando de suas casas, famílias, empregos e até do país. Alguns não tiveram a mesma “sorte” e foram mortos por ser contrário aos ditadores e suas leis. Não era diferente nas instituições evangélicas que por sua vez, entendiam que os militares eram sim uma resposta de Deus. Seguindo esta linha mais dura, muitos líderes e pastores impunham suas regras e cartilhas para conter o abuso dos fiéis em relação às práticas pecaminosas.

Nessa direção muitas pessoas começavam a seguir as denominações que se adequavam a seu estilo de vida, nem sempre a cruz era o alvo, mas um lugar que trouxesse paz e conforto a sua alma, embora seja importante frisar que a conduta imposta sobre os membros era tão repressora que causava mal estar. Muitos foram que deixaram o Caminho para seguir outras religiões mais amenas, pois seguir as “leis dos crentes” era pesado demais.

Não obstante ainda se vê alguns remanescentes dessa época sendo escravizado pela lei “humana” e por regras dos “pode e não pode”, regida por alguns homens que por zelo ou manipulação regem as vidas alheias com mão de ferro.

Assim como a ditadura saiu de cena e deu lugar a liberdade de expressão, com isso muito temor foi deixado de lado, junto com os bons costumes, e infiltrado em nossa cultura uma libertinagem sem precedentes. No meio evangélico não é diferente, porque as regras deram lugar a uma graça barateada, onde cada um pode fazer o que quiser, afinal somos livres. Nunca se viu tanta igreja de portas abertas oferecendo um evangelho que aprisiona.

Com isso é perceptível uma teologia confusa. Afinal o homem é livre ou aprisionado? Algumas igrejas dão a idéia de um homem livre de todo pecado e culpa e podendo escolher seu destino, logo encontra base bíblica para todo absurdo. Por outro lado há lugares que tentam prender os seus colocando um julgo maior do que possam agüentar. Seja como for, Jesus veio para libertar os cativos, e todo escrito de dívida que fazia separação entre Deus e o homem Ele levou consigo a cruz, trazendo paz, cura e libertação.

É tempo de viver um Evangelho simples longe das falácias de homens corruptos que vendem sonhos e roubam seu dinheiro. Para conseguir enganar as “ovelhas” estes manipulam a seu favor, mas as conseqüências disso podem ser avassaladoras, já que alguns insistem em colocar um peso de culpa maior em seus membros, com o único intuito de manipular suas vidas.

Nossa dificuldade maior é de aceitar o perdão de Deus, quando temos dificuldade nisso, ficamos presos em nossos conceitos e culpas, sendo objeto de manobra de pessoas que querem nosso mal, são lobos em pele de cordeiro. Quantas pessoas ficam paralisadas emocionalmente e psicologicamente porque a culpa as aprisiona em cadeias sem grades.

O número de enfermos da alma é enorme, e infelizmente o cristianismo distorcido tem levado muitas pessoas boas a viverem longe de Deus, pois acreditaram tanto em falsos pastores que hoje falar em igreja, fé e evangelho é tortura.

O liberalismo entrou no Brasil e as portas estão escancaradas. A igreja evangélica tem absorvido isso de forma literal, não é difícil encontrar pessoas que vivem uma vida louca e correm para a igreja atrás dos benefícios. O que isso pode ser entendido como cristianismo nominal (só tem nome de crente), artistas e pessoas comuns se unem nos bancos de igreja e correm atrás de promessas vazias, mas fora das quatro paredes vivem suas vidas sem medo de represália, fazem de tudo um pouco e expõem o Nome de Jesus as traças, sendo motivo de chacota e escárnio dos incrédulos.

Pensando nessas pessoas que vão a igreja (embora não são Igreja), mas não se comprometem com o evangelho de Jesus, fico pensando sobre a condição de vida que a faz prosseguir na velha prática do pecado. Quando passam a agitação do erro e correm atrás do frenesi da religião, se embriagam no mantra das canções e se deleitam no positivismo das ministrações, falam para Deus de suas mazelas, mas não conseguem discernir se estão arrependidos ou com remorsos de seus delitos.

Justamente isso que faz toda diferença na caminhada cristã, pois esta linha tênue que falei no início parece não conseguir separar este sentimento tão confuso em nós.

Como vamos diferenciar isso? Se levar em conta que alguns atos “errados” foram praticados quando estavam preso na religião, essa culpa pode trazer muita confusão, afinal como se arrepender de algo que depois você fica sabendo que não era pecado?

Esses últimos meses tenho investido meu tempo na leitura dos evangelhos, em especial de João, e a relação entre o Mestre e seus discípulos, têm sido muito gratificante. Quase perto de ir à cruz, Jesus reúne com os seus e menciona a necessidade do sacrifício e que eles de alguma forma o trairia. Talvez dois personagens ficam em nossa cabeça nesse instante, um chega a ser motivo de chacota e visto como “o traidor”, mas não foi só Judas que assim o fez, mas todos tiveram sua contribuição, mesmo que em menor grau.

Judas tinha um desvio de caráter que o tempo com Jesus não foi suficiente para que ele pudesse mudar, nessa jornada ele vendeu informações sigilosas do grupo e nas vésperas do acontecido ele recebe um valor que depois ao perceber a “burrada” que estava fazendo tenta desfazer o negócio entregando as moedas para os sacerdotes, mas não tinha como reverter àquela situação, seria necessário encarar as conseqüências de uma traição.

Pedro era impetuoso, sempre falava o que vinha na cabeça, sem pensar em nada, por vezes fora repreendido por Jesus. Esse temperamento foi a possível causa que os soldados fossem armados pegar Jesus, afinal como lidar com alguém que a qualquer momento estourasse e partisse para as vias de fato?

A psicologia moderna poderia explicar cada caso à luz da medicina, mas a verdade é que esses dois personagens refletem nossas vidas em determinado momento, cabe a nós entender o que a Bíblia diz e encarnar na essência essa Verdade, trazendo Luz ao deserto de nossa alma.

Há pessoas que dizem arrependidas de um erro, mas depois voltam a cometer o mesmo por inúmeras vezes. Quantas vezes ofendemos um amigo e arrependidos pedimos perdão para que o mesmo não fique chateado conosco. Na verdade só fingimos “humildade” para não ficar mal com ninguém, mas dentro de nós o sentimento de raiva alimenta outros sentimentos piores. Então isso não foi arrependimento. Talvez aqui nem se encaixe a palavra remorso, fiz uma coisa ruim e senti remorso momentâneo, mas isso não significa que eu não venha cometer outra vez, só quero voltar a falar com a pessoa, mas se pisar na bola “volto a soltar” os cachorros.

Arrependimento e remorso caminham juntos. Ambos produzem sofrimento e dor. O arrependimento leva a retornar de onde caiu já o remorso leva a decepção. A história dos discípulos ajuda-nos.

Em Mateus 27. 3-5 “Judas, que o traíra, vendo que fora condenado, trouxe arrependido, as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo: pequei, traindo o sangue inocente. Eles, porém, disseram: que nos importa? Isso é contigo. E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar”.

Após a condenação “caiu a ficha” de Judas que ficou atordoado com seu pecado. De pronto ele corre até os líderes religiosos e tenta devolver o dinheiro como forma de amenizar sua atitude. Com a recusa ele comete suicídio.

Parece-me louvável que Judas ao perceber seu erro, tenta repará-lo, me faz lembrar Zaqueu ao dizer “Senhor, eis que eu dou aos pobres, metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado” (Luc. 19.8), então Judas a principio segue este caminho, vou devolver tudo que está relacionado ao meu pecado e vou sentir minha consciência mais leve.

Pedro negou o Mestre como diz em João 18.25 “E Simão Pedro estava ali, e aquentava-se. Disseram-lhe, pois: Não é também tu um dos seus discípulos? Ele negou e disse: Não sou”. Após esse fato, triste pelo ocorrido, Pedro sai caminhando desiludido. Na terceira negativa Jesus fitou os olhos de Pedro que senti o peso de sua culpa. Ele não tinha como devolver em espécie o dano que havia causado, isso o afligia, o atormentava e possivelmente o fazia refletir sobre seguir sua vida.

Não era digno de ser chamado de discípulo. Sem fazer conjecturas, mas a notícia do suicídio de Judas já era presente em toda parte e Pedro sabia que também havia traído. Correr ao mesmo lugar e procurar a morte era uma alternativa, mas algo dentro dele o fazia sentir mal, mas sabia que era preciso esperar.

Cada discípulo foi para sua casa, uns sem entender nada, outros ainda chorando por ser omisso diante da situação. Talvez uns quisessem ter matado Judas antes, assim evitaria a traição, outros murmuravam sem saber o que seriam deles agora. Lucas 24.13 em diante relata que dois discípulos foram a caminho de Emaús, desiludidos, falando entre eles sobre Jesus que fora um profeta, homem de Deus e que eles esperavam que Ele fosse o remidor de Israel.

O sonho acabou? Era um dia triste e amargo. Mas o comportamento entre os dois tinha um diferencial que precisa ser relatado. Não há passagem nas escrituras que mencione que Pedro tentou reparar o erro, sim ele ficou muito triste e decepcionado consigo mesmo, interessante que Jesus foi ao seu encontro após a ressurreição. Talvez Pedro ficasse constrangido com aquela situação, mas sabia que não tinha como reverter seu erro. Então toca sua vida normalmente, volta à rotina de sua profissão. Mesmo que fosse ao extremo tirando sua própria vida, sabia que era impossível fazer alguma coisa para reverter seu pecado.

Embora desacreditado e temendo a si mesmo, sem entender as reais convicções de Jesus ao ir a Cruz, sabia que somente Ele poderia mudar esse quadro, subjetivamente Pedro contava unicamente com a Graça.

Ao deparar com Pedro que tentava levar sua vida simples novamente, o Mestre vê nele o arrependimento, levando a aceitá-lo do jeito que esta, não faz cobranças ou impõe regras para voltar a segui-Lo, simplesmente o encarrega de fazer discípulos, pastorear e amar pessoas como ele, pobre pecadores carente da graça e misericórdia de Deus.

É impossível não cometer erros na nossa caminha cristã, alguns são tão graves que nos sentimos impuros e sujos, envergonhados e abatidos. Não há homem e mulher que não tenham a sensação que ao cometer um pecado sinta-se afastado do Criador. A bíblia diz que Davi era um homem falho, mas sempre confessava seus erros e arrependido alcançava o perdão. Não somos diferentes nisso, pois João nos diz “se confessarmos nossos pecados Ele é fiel e justo para nos perdoar de todo pecado”. Não há acusação para aqueles que estão em Cristo Jesus.

Há situações que o pecado trás conseqüências a nossas vidas, mas depois de praticá-lo não tem como remediar. Aqui vale a máxima da prevenção, precisamos prevenir para não cair nos erros, mas depois de cometê-los nada que fizermos irá reparar tamanha falha, só nos resta aceitar que falhamos arrepender-se e confessar.

Logo após qualquer delito, nossa consciência nos acusa de ter infligido uma lei. Porque se não há lei também não há acusação, mas quando entendemos que uma lei determina que houve uma falha, é preciso reconhecer o ato e não transgredi-la novamente. Nisso entendemos que ficar “martelando” nosso pecado só irá mostrar que não há nada que façamos para pagar, só a sensação de remorso pelo ocorrido, vivendo assim, só nos apontará a uma mutilação de nosso corpo. Querer impor uma penitência com o intuito de repor alguma coisa, ou seja, “as pessoas precisam saber que fiz besteira e que estou disposto a pagar nem que seja com a própria vida”.

Jesus em momento nenhum diz que precisamos pagar alguma coisa, pois o preço do pecado é a morte, mas o Evangelho nos aponta para a Cruz, Judas morreu com o remorso de que sua traição levou um inocente a morrer, enquanto Pedro arrependido pela traição, e percebendo que nada que fizesse iria apagar a mancha de seu pecado, ao ser confrontado pelo Mestre, aceita o desafio de levar adiante a mensagem da Graça, que cura e liberta pessoas comuns que assim como ele sabia que somente seremos livres quando aceitarmos o sacrifício expiatório do Mestre.

Logo arrependimento envolve todo nosso ser (corpo, alma e espírito) não há mais nada a fazer senão confiar que Ele se colocou em nosso lugar pagando o preço de morte e zerou nossas dívidas. Jesus tomou sobre si todo nosso sofrimento e dor.

Isaias profetizou sobre isso “Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do SENHOR? Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos. Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos. Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca. Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi atingido. E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca. Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão. Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniqüidades deles levará sobre si. Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores. (Isaías 53:1-12)

Sentir remorso pelo erro e continuar a praticá-lo ou tentar alternativas para pagá-lo não irá resolver nada, mas quando se arrepende e entende que Ele já fez tudo de uma vez, única e exclusiva, por nós, aceitando-O como nosso libertador e senhor, somos transformados e nossa vida refletirá a Sua glória. Que possamos ouvir a mesma voz, mansa e suave, trazendo paz, conforto e salvação.