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Vocação ou Trampolim Ministerial?

Algumas vezes me deparo com algumas pessoas que insistem em falar de dons ministeriais e sua relação com carreira ministerial, é certo que talvez precise criar este paralelo para melhor entendimento do assunto, mas de maneira alguma eles podem trilhar juntos. A igreja precisa dar vazão aos dons ministeriais e parece que pouco se fala deste assunto, pois tenho a impressão que somente alguns “títulos” visíveis ganham adeptos e fomentam a fome e sede pelo status quo. Digo isso porque conheço algumas pessoas que se lançam a “trabalhar” e quando alcançam a sua “promoção” ministerial se limitam a fazer as coisas conforme sua agenda, logo àquilo que em palavra é muito bonito, parecendo com nossos políticos brasileiros, na pratica se esconde com firulas e trejeitos de crente, afirmando que só fazem se DEUS mandar, dando a sua fala certo ar de santidade.

Gosto muito de Paulo e por diversas vezes me gastei em seus escritos, pois ele sendo um homem culto nunca usou da prerrogativa para se vangloriar, mas para ensinar a gregos e judeus que seguir a Cristo e ajudar as pessoas deveriam ser as primícias da vida. Isso é tão relevante em sua maneira de escrever que várias de suas cartas ele manifesta sua preocupação contra os aproveitadores da fé, penso que se ele pudesse assistir alguns cultos de nossa igreja do século 21 ficaria extremamente preocupado se em algum momento escreveu algo que tivesse múltipla interpretação, já que muitos fazem de seus escritos trampolim para inserir nos menos incautos uma filosofia que jamais encontrara guarida na Palavra.

Quando o assunto é dons espirituais uma gama de pessoas tendem a tomar partido, e mesmo sem entendimento de causa, guiados por cegos, acreditam que são mestres na teologia e interpretam aquilo que pensam ser correto, primeiro porque aprendeu errado e segundo o sistema educacional brasileiro é precário, junta a fome e a vontade de comer e dá nisso, líderes mal preparados e igrejas cheias de pessoas sem conteúdo.

Voltando a Paulo ele diz aos Coríntios para que não sejam ignorantes em relação aos dons espirituais onde há uma diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. Assim como há diversidade de ministérios e o Senhor é o mesmo. Ou seja, a fonte é uma só, mas dá aos homens conforme a “necessidade” da Igreja para que o Corpo bem ajustado de frutos.

É natural que o homem pense que um determinado dom seja mais importante que o outro pela sua abrangência, mas é na multiforme maneira de agir de Deus que eles se completam, e nisso precisamos entender o corpo humano, imagina se fossemos só cabeça, ou tivéssemos mãos, qual seria o grau de dificuldade em locomover, ou se não tivéssemos estômago, rins, pulmão, mas somente coração? Ele nos fez perfeito e cada parte do corpo humano interage entre si, independente se ele é visível ou não, para o bom funcionamento do todo, podendo assim proporcionar qualidade de vida.

Uma dor de cabeça pode ter diversas causas, e precisa ser investigada, afinal uma aspirina pode só mascarar um problema maior, da mesma forma algumas igrejas sofrem algumas perdas e não conseguem detectar a causa porque preferem dar aspirinas espirituais, possibilitando que o corpo sofra quando o problema nem sempre é complexo.

Então se faz simpósios, conferências e ajuntamentos para discutir dons, talentos e ministérios quando na verdade cada pessoa deveria simplesmente ficar no seu “chamado”, mas preferem se auto intitular “enviados de Deus” com a última boa nova para os santos, logo se vê uma multidão em volta deste santo tentando a todo custo tocar em suas vestes “ou suor” como se neles tivesse a porção mágica da transcendência gospel.

Uma grande preocupação e até inércia de alguns é quanto discernir o chamado de Deus para o serviço ministerial, alguns confundem pensando que o sucesso ministerial deve deixar marcas na vida das pessoas, esquecendo que somos cooperadores do Reino e toda obra é dEle, cuidado porque usar os dons para auto promoção pode ser o início de uma derrocada, afinal “assim também Cristo não se glorificou a si mesmo…” Hebreus 5.5.

Fala-se em chamado de Deus para sua obra, mas como saber se Ele nos chamou e como fazer com que esta “chamada” não vire um dor de cabeça pessoal e coletiva, pois muitos que foram chamados, mas transformaram isso em algo pessoal e perderam o foco de Deus, caminharam por lugares esquisitos entre a fé e a loucura, transformando seu chamado em opressão a quem estava sob sua liderança e envergonhando a causa de Cristo.

Assim como no corpo humano um membro pequeno e invisível tem sua importância, na causa do reino acontece o mesmo, pois nem todos serão pastores e mestres, mas limpar o banco ou o vaso sanitário tem o mesmo valor, pois estamos a serviço para auxiliar o nosso próximo, a questão é que se ele não aparece e não a um marketing ninguém quer fazer.

O chamado mais importante de todo cristão é “Ide por todo mundo e pregai o evangelho”, nem sempre isso será feito pregando ou cantando, mas uma vida devota tem mais peso do que outra coisa. A palavra arq (qara) no hebraico e kalew (kaleo) no grego têm suas peculiaridades: Gen 48.16 e At 11.26 dá nome a pessoa ou objeto; Ex 2.7 convida ou solicita; Rm 4.17 e Ez 36.29 criar ou produzir mediante a palavra; Is 22.12 e Mat 22.14 convida a assumir um dever pela palavra e a ação do Espírito Santo.

Efésios 4.11-16 “E ele mesmo deu uns para apóstolos, outros profetas, outros evangelistas e outros pastores e mestres; Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo; Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados por todo vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astucia enganam fraudulosamente; Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxilio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor”.

Quando entendemos que Deus nos deu chamou e independente da função a exercer nos comprometemos a servir o corpo e não a nossa vaidade o propósito será alcançado, pois é preciso dedicar integralmente ao ministério e quando alguém faz uso dele sem vocação corre o risco de levar a congregação a sofrer as conseqüências de um erro pessoal.

Afinal pode-se confundir talento natural com chamado de Deus e viver frustrado com pessoas e resultados. Há quem saiba tocar e cantar, há bons escritores, há bons palestrantes e mesmo assim sem nenhum vínculo cristão.

Nesses dias atuais aonde a televisão e internet chega a lugares longínquos, pode ocorrer de usá-las com o intuito errado, só querendo apresentar serviço que ganhe notoriedade humana, deixando os menos favorecidos sofrerem as penas de decisões obsoletas, como auxiliar as viúvas e os órfãos. Quando alguns largam a vida secular e vivem do evangelho sem ter chamado algum corre o risco de frustração e descaso.

O livro de Tito dá algumas dicas aqueles que dizem ter o chamado: Irrepreensível, Marido de uma só mulher, Ter filhos fiéis, Hospitaleiro, entre outros… Em II Timóteo fala em vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, talvez o problema seja que alguns destes candidatos vivem com aparência de bondade e mansidão, mas são lobos devoradores que estão a espreita para devorar quem lhes cruze o caminho.

Dentro da visão bíblica alguns sinais ajudam a identificar a chamada ministerial, podendo autenticar ou não os possíveis candidatos. Embora haja quem pense na possibilidade de indicar outro seja tarefa de um grupo de pastores ou até mesmo da igreja local, não pode deixar de levar em conta que a própria pessoa terá a aprovação do Senhor e sua vida terá frutos que abone. Há um ditado popular que diz que a voz do povo é a voz de Deus, lembremos que os israelitas queriam um rei contrariando a vontade do Senhor, então cuidado com tapinhas de aprovação nas costas dizendo que você leva jeito, quando pode ser na verdade só para ti agradar e ajudar a afundar sua vida e ministério. Mais do que qualquer outro a pessoa sabe identificar nela se há o chamado de Deus para sua obra, e sabendo que a obra é dEle e que vidas estarão sobre seus cuidados.

Spurgeon conceitua “Não entre no ministério se puder passar sem ele” e “…A Palavra de Deus deve ser um fogo em nossos ossos, do contrário, se nos aventurarmos ao ministério, seremos infelizes nisso, seremos incapazes de suportar as diversas formas de abnegação que lhe são próprias, e prestaremos pouco serviço àqueles aos quais ministramos”.

Sugiro que a pessoa pergunte a si mesmo:
1. Porque almejo tal ministério?
2. Esse desejo é resultado de oração, estudo e reflexão?
3. Minha família me vê como ministro do evangelho e me apóia?
4. Quais frutos são evidências em minha vida?
5. Quais são as experiências em áreas no cotidiano da igreja que me ajuda a fortalecer meu chamado?

Após uma profunda analise é preciso entender qual o dom que existe em você e como ele irá abençoar a vida de outros, pois o Espírito deu a palavra de sabedoria, há outro a palavra do conhecimento, outros fé, há outro dom de curar, há quem opere maravilhas, discerne espíritos, outros profecia, variedade e interpretação de línguas. O mesmo Espírito operando a favor do corpo, ora são muitos membros, mas um só Corpo e uma cabeça Jesus.

Paulo pergunta: São todos apóstolos? Profetas? Doutores? Falam outras línguas? As discernem? Não importa, desde que seja feito com zelo, e mesmo que a pessoa tenha todos os dons se não amar de nada vale, porque só permanece a fé, a esperança e o amor, sendo este último o maior dentre os três.

Qual a sua vocação? Você esta atrás de fama, status ou título? Aconselho entrar no Reality Show, afinal além de fama ganhará um bom trocado. A Casa de Deus não pode ser trampolim para lançar CDs, DVDs, livros, apostilas, candidatura a cargo público… Acredito na seriedade de muitos homens e mulheres que são impulsionados por Deus a escrever ou gravar uma canção, mas fazer uso dessas ferramentas para uso próprio é se rebaixar ao mesmo nível ou pior que canalhas não cristãos.

Embora o envolvimento com a causa do reino envolva toda sua vida, e alguns casos, é preciso de tempo integral, há quem se esconda atrás desse artifício para não trabalhar secularmente e viver à custa da fé alheia. São pastores e missionários sem igreja, vivem a mercê de sua própria sorte sem reportar suas vidas a um colegiado de homens sérios, o pior que este nível de pessoas tende a crescer, já que os cursinhos on line vendem diplomas e consagram por um bom preço.

Não veja a Igreja como plataforma para alavancar seus projetos pessoais, muito menos como empresa que conforme avance suas tarefas e compromissos ganha promoções. Acredito que a igreja precisa por em prática todos os dons e ministerios, dando ênfase ao governo (administração), pois nem sempre o pastor titular pode estar preocupado com contas a vencer e se preparar para o sermão ou aconselhamento de casais. Se cada instituição funcionasse como empresa do ponto de vista administrativo, teria muito êxito sem abrir mão da Verdade do Evangelho Puro e Simples. Se cada líder de departamento agisse como pastor de sua área, menos problemas para o pastor titular e assim sucessivamente, mas o que se tem visto é uma corrida desenfreada pelos púlpitos para mostrar a última revelação ou a canção que Deus deu enquanto dormia.

Não quero expor este artigo para menosprezar o ministério de ninguém, mas afirmar que você tendo o chamado e entendendo que ele será motivo para que outros cresçam na vida cristã, use seus dons e talentos e exercite agora, mesmo sem TER o título. Pois para Deus você precisa SER e não TER… Sou da seguinte opinião, se uma pessoa é líder de uma igreja ela é pastor, quando ela esta sem igreja para dirigir que seja somente presbítero, pois não existe pastor sem ovelhas…

Há pouca ênfase em alguns ministérios, mas de extrema importância para a Igreja de Cristo. I Cor. 12.28 diz: “E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo profetas, terceiro doutores, depois milagres, dons de curar, socorros, governos, variedade de línguas”. Preste atenção que a maioria das pessoas quer os primeiros (apóstolo é a febre do momento), profetas (há lugar que profeta parece guru gospel), onde estão os doutores (o povo perece por falta de conhecimento), há ênfase em milagres e curas (igrejas neo pentecostal fazem barulho pela cidade), socorro (Meu Deus socorro mesmo, pois pouco se faz por Ação Social), governo (engana-se quem pense que a igreja não precisa de bons administradores, não só financeiro quanto gestão de pessoas), variedade de línguas (há alguns anos nas igrejas Pentecostais quem não falava em línguas boa coisa não era, pastores forçavam seus membros a enrolar a língua como sinal de Deus).

Precisamos voltar à essência do cristianismo dos primeiros anos, onde os apóstolos focavam na pregação do evangelho e as tarefas eram divididas entre os diáconos para o bem comum. É preciso rever esse sentimento de que tal ministério é mais importante que outro, só pelo status que proporciona, penso que precisamos de bons administradores que zele pelo templo, pelo financeiro e por pessoas, gestores que venha dar um UP na administração eclesiástica e tire o peso do pastor faz-tudo.

Quem dirige o culto, ministra o louvor, ministra a oferta, apresenta criança, celebra casamento, faz velório, acode o doente, ministra a palavra, aconselha e etc… Precisamos entender nosso papel no corpo de dividir tarefas, nem centralizar tudo em nós, como também ficar a mercê de alguém que faça tudo por nós. A igreja é de Cristo que nos capacitou com dons e talentos com o cuidado de servir uns aos outros em amor. Portanto cuidar da alma, alimentando e zelando para que não se perca é tarefa pastoral, enquanto cuidar do templo, finanças, construção, reforma e outras benfeitorias são do administrador. Não pode ser de lançado nas costas de um só homem. O gestor é quem deve administrar departamentos e saber se determinado líder esta efetuando suas tarefas, deve haver cobranças e também elogios, senão as coisas ficam numa inoperância sem fim.

Cada pessoa precisa descobrir qual seu chamado e fazer seu serviço para o bem comum, sem pensar em ganhar, pois evangelho é de perdas e renúncias. É claro que você fazendo bem feito seu trabalho ministerial, isso pode ser um teste para cuidar de algo maior, conheço bons pastores que foram excelentes líderes de jovens. Como também bons secretários que sabiam administrar tão bem que chegaram a ser co pastor e pastor. Tudo tem seu tempo e seu espaço, lembrando que fazendo a um pequenino estamos fazendo ao Senhor, por isso arregace as mangas e faça o seu melhor pelas pessoas. Não queira ser aquilo que o Senhor não o chamou, mas use seus dons e talentos para que o Reino avance e alcance vidas a Ele. Porque é por Ele, para Ele e por Ele todas as coisas, o Princípio e o Fim, o Alfa e o Omega, o Cabeça de um Corpo que Ele constituiu Igreja para que todos juntos fortalecidos em amor cresça em unidade.